Escuta Psicanalítica
Completamente diferente de um amigo ouvindo você falar na mesa do bar, a escuta psicanalítica, antes de mais nada, surge como uma prática clínica, uma técnica diferenciada que, dentre outras coisas, exige o desapego, a renúncia e o abandono de si em prol de uma alma que nos propomos a escutar, conhecer, compreender e acolher.
Tanto na postura psíquica quanto na corporal, nos abrimos ao outro. Numa espécie de translocação, saímos de nós mesmos e mergulhamos inteiramente no outro. Não há nada mais acontecendo, a não ser a fala do outro, o olhar, as expressões faciais e corporais, os silêncios e os diferentes tipos de clamor por algum tipo de alívio.
Numa espécie de dissociação consciente, abandonamos nosso corpo e nossos sentidos para passarmos a ser "apenas" doação e atenção plenas, como se a nossa alma passasse a contornar a do outro, numa espécie de conexão ou fusão parcial, onde passamos também a sentir o que aquela alma transmite e emana.
De alma pra alma, moral e imoral, certo e errado, feio e bonito, bom e ruim, bem e mal, virtude e pecado são esvaziados de sentido, passando a prevalecer "apenas" a essência da experiência que, assim como a realidade universal, pede para ser compreendida "somente" através de sua relação de causa e efeito.
Em meus devaneios utópicos, mantenho vivos o desejo ea esperança de um dia, numa outra fase, num outro momento, nos tornarmos todos, não psicanalistas, psicólogos ou terapeutas, mas sim "apenas" pessoas capazes de esvaziar-nos frente a alma, a integralidade, a totalidade e a experiência que existem apenas no outro.
Roni Adame
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